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Termografia como camada complementar em TSCM

As operações de Technical Surveillance Counter-Measures (TSCM), ou Contramedidas Técnicas de Vigilância, envolvem a aplicação integrada de diferentes técnicas para identificar, neutralizar e prevenir ameaças relacionadas à vigilância eletrônica.

Analisadores de espectro, detectores de junção não linear (NLJD), detectores de campo próximo e inspeções físicas são alguns dos recursos empregados nesse tipo de operação. Entretanto, nenhuma técnica isolada é capaz de identificar todas as possíveis ameaças.

Nesse contexto, a termografia infravermelha pode constituir uma camada adicional de análise. Equipamentos eletrônicos em funcionamento dissipam energia na forma de calor e, em determinadas condições, essa característica pode produzir assinaturas térmicas identificáveis durante uma inspeção.

Um estudo prático utilizando uma câmera termográfica FLIR E8 Pro demonstrou como essa tecnologia pode auxiliar na localização de dispositivos eletrônicos ocultos durante uma operação de TSCM.

O que é termografia infravermelha?

A termografia infravermelha é uma técnica que permite analisar a radiação infravermelha emitida pelos corpos em função de sua temperatura.

Em uma inspeção TSCM, o objetivo não é simplesmente localizar regiões quentes. O operador procura anomalias térmicas: diferenças de temperatura que destoam do padrão esperado para determinada superfície, estrutura ou objeto.

Um dispositivo eletrônico oculto em uma parede, mobiliário, luminária ou veículo, por exemplo, pode gerar uma assinatura térmica diferente do material ao seu redor.

Essa diferença pode fornecer ao operador um indício adicional de que determinado ponto merece uma inspeção mais detalhada.

Figura 1 – Utilização da termografia infravermelha. Fonte: Zhang et al. (2022).

Aplicações da termografia em TSCM

No contexto da contrainteligência e das inspeções técnicas, a termografia pode auxiliar na investigação de diferentes situações, como dispositivos eletrônicos ocultos em estruturas, câmeras clandestinas instaladas em objetos ou luminárias, rastreadores posicionados em veículos e equipamentos ou cabeamentos ocultos em determinadas infraestruturas.

A identificação de uma anomalia térmica, entretanto, não significa automaticamente a descoberta de um dispositivo de espionagem. O resultado deve ser interpretado dentro do contexto da inspeção e correlacionado com as demais evidências encontradas durante a operação.

A FLIR E8 Pro como ferramenta complementar

Para avaliar a aplicação prática da termografia em TSCM, foi utilizada uma câmera FLIR E8 Pro.

O equipamento possui resolução térmica de 320 × 240 pixels (76.800 pixels) e sensibilidade térmica de aproximadamente 0,05 °C. Também utiliza a tecnologia MSX (Multi-Spectral Dynamic Imaging), que combina detalhes da imagem visual com a imagem térmica, facilitando a interpretação dos padrões observados.

Figura 2 – Câmera termográfica FLIR E8 Pro. Fonte: FLIR (2023).

Estudo prático: detecção de dispositivos em um veículo

Para avaliar a aplicação da técnica em uma situação controlada, foi realizada a simulação de uma varredura física e eletrônica veicular.

Foram previamente instalados dois dispositivos: um rastreador veicular GPS, posicionado junto à lataria, e uma tag de geolocalização, instalada no estofado do banco de passageiros.

O estudo partiu da premissa de que outras camadas da varredura eletrônica já haviam sido realizadas e que sinais associados aos dispositivos tinham sido identificados por meio da análise do espectro. O objetivo, portanto, era verificar se a termografia poderia funcionar como uma camada adicional para auxiliar na localização física dos equipamentos.

Figura 3 – Locais utilizados para instalação do GPS (esquerda) e da tag (direita). Fonte: acervo do autor.

Identificação da anomalia térmica

Na primeira análise da lataria, observou-se uma região cuja temperatura destoava do padrão térmico ao redor.

Na imagem termográfica, o ponto mais quente registrado foi de aproximadamente 26,5 °C, enquanto o ponto mais frio apresentou aproximadamente 17,8 °C. Dentro da região analisada, tornou-se perceptível uma mancha térmica anômala.

Ao direcionar a câmera para o centro dessa região, a diferença tornou-se mais evidente. A anomalia que inicialmente aparecia apenas como uma alteração no padrão da superfície passou a representar o ponto de maior temperatura da área analisada.

Figura 4 – Anomalia térmica identificada na lataria do veículo. Fonte: Relatório Termográfico FLIR (2025).
Figura 5 – Direcionamento da análise para o centro da anomalia. Fonte: Relatório Termográfico FLIR (2025).

Confirmação do rastreador

Na etapa seguinte, a região foi submetida à inspeção direcionada.

A fonte da anomalia térmica foi então identificada como o rastreador veicular previamente instalado para o estudo, que aparecia como o ponto mais quente da imagem, com aproximadamente 23,1 °C.

Figura 6 – Identificação do rastreador veicular correspondente à anomalia térmica. Fonte: Relatório Termográfico FLIR (2025).

Detecção da tag no estofamento

O mesmo princípio foi aplicado à tag posicionada no banco do veículo.

A análise revelou uma diferença térmica perceptível entre o dispositivo, que apresentava aproximadamente 24,4 °C, e a região mais fria do estofamento, com aproximadamente 20,3 °C.

A diferença demonstrou novamente a possibilidade de utilizar padrões térmicos anômalos como elemento auxiliar na localização de dispositivos eletrônicos.

Figura 7 – Diferença térmica entre a tag e o estofamento do veículo. Fonte: Relatório Termográfico FLIR (2025).

Limitações da termografia

Apesar dos resultados observados, a termografia possui limitações importantes.

Ambientes ou superfícies submetidos a diferentes fontes de calor podem produzir anomalias sem qualquer relação com dispositivos eletrônicos, aumentando a possibilidade de falsos positivos.

Da mesma maneira, equipamentos desligados ou que apresentem dissipação térmica muito baixa podem não gerar contraste suficiente em relação ao ambiente para serem identificados.

Por esse motivo, uma assinatura térmica deve ser tratada como um indicador para investigação, e não como evidência isolada da existência de um dispositivo de vigilância.

Uma camada adicional, não uma substituição

O experimento demonstra o potencial da termografia como camada complementar em operações de TSCM.

Sua principal contribuição está na possibilidade de revelar diferenças térmicas que direcionem o operador para regiões que merecem investigação adicional.

A câmera termográfica não substitui a análise do espectro de radiofrequência, detectores de junção não linear, detectores de campo próximo ou a própria inspeção física. Quando utilizada em conjunto com essas técnicas, porém, acrescenta uma nova fonte de informação ao processo de detecção.

Em TSCM, a eficácia da inspeção está justamente na combinação de diferentes camadas de análise.

Pontos-chave

  • A termografia permite identificar anomalias térmicas associadas a equipamentos eletrônicos.
  • Pode auxiliar na localização física de dispositivos previamente detectados por outras técnicas.
  • No estudo realizado, foi possível identificar termicamente um rastreador GPS e uma tag ocultos em um veículo.
  • Uma anomalia térmica não comprova, isoladamente, a existência de um dispositivo de espionagem.
  • A termografia deve ser empregada como camada complementar dentro de uma metodologia TSCM.

Referências

FLIR Systems. FLIR E8 Pro Datasheet. 2023.

ZHANG, N. Detecting Hidden Spy Cameras via Thermal Emissions. CCS Press. Los Angeles, CA, USA, 2022.

ZUNIGA, A. Discovering Covert Surveillance Devices using Thermal Imaging. University of Helsinki. Helsinki, FIN, 2022.


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