Dois adversários querem a mesma informação da sua empresa. O primeiro precisa justificar a despesa para o diretor financeiro dele. O segundo responde a uma estratégia nacional e não precisa justificar nada a ninguém. Tratar os dois da mesma forma é o erro mais comum que vejo em programas de proteção de informação.
Gastar demais ou de menos
Quando uma empresa brasileira pensa em espionagem, pensa no concorrente. Faz sentido: é o adversário visível. O problema é que essa imagem deixa de fora um ator com muito mais recursos. No extremo oposto, há empresas que enxergam serviços de inteligência estrangeiros atrás de cada ligação estranha e gastam energia com o adversário errado.
As doutrinas de inteligência resolvem isso com uma fórmula antiga: ameaça é intenção multiplicada por capacidade. Não basta alguém querer a informação. É preciso perguntar quem tem, de fato, interesse e meios para obtê-la.
A lógica do concorrente: custo contra benefício
Uma empresa só espiona outra se puder obter um lucro maior do que o valor gasto na operação. A decisão é econômica. E isso dá a quem se defende uma vantagem poderosa: se o adversário faz conta, você pode mudar o resultado da conta.
- Cada camada de proteção aumenta o custo da operação.
- Cada procedimento que torna a coleta mais lenta aumenta o risco de ela ser percebida.
- Cada informação que sai da fonte aberta obriga o adversário a subir um degrau, e degraus mais altos custam mais.
Não é preciso ser impenetrável. É preciso ser caro o suficiente.
A lógica do Estado: a conta é outra
Com um Estado nacional, essa conta muda. Se o objetivo for considerado estratégico, os recursos empregados podem superar qualquer lucro que a informação venha a gerar. E os recursos são de outra ordem:
- Serviços de inteligência com pessoal treinado e orçamento contínuo.
- Controle de fronteira: um Estado pode reter e questionar um executivo na imigração por horas.
- Infraestrutura de comunicações: países que concentram tráfego internacional conseguem captar os dados que passam por ela.
- Cadeia de suprimentos: há casos documentados de dispositivos implantados em equipamentos antes de chegarem ao cliente.
O NCSC, o centro nacional de contrainteligência dos EUA, alerta há anos que Estados estrangeiros usam instrumentos aparentemente comerciais, como investimentos, joint ventures, parcerias acadêmicas e aquisições, para chegar a tecnologias que não conseguiriam comprar abertamente.
Quando o Estado usa um intermediário privado

O caso mais estudado de espionagem econômica mostra como as duas lógicas se misturam. Nos EUA, o empresário Walter Liew foi condenado em 2014 por obter segredos da DuPont sobre a produção de dióxido de titânio, um pigmento branco usado em tintas, plásticos e papel. A tecnologia foi repassada a um conglomerado estatal chinês, e a porta de entrada foram ex-engenheiros da própria DuPont. Foi a primeira condenação por júri federal com base na lei americana de espionagem econômica, de 1996, com pena de 15 anos.
Três lições para uma empresa brasileira:
- O Estado raramente aparece como Estado. Aparece como consultoria, fornecedor, comprador ou parceiro acadêmico.
- O alvo não era um segredo militar. Era um processo industrial de um produto comum, com enorme valor econômico.
- A porta de entrada foram pessoas, antigos funcionários que conheciam o processo. É o tema do próximo artigo.
Contra o concorrente, a boa segurança é a que torna a espionagem um mau negócio. Contra o Estado, é a que não depende de o adversário fazer conta.
Sua empresa está no radar de um país?
A cartilha de espionagem econômica do PNPC propõe quatro perguntas objetivas. Uma única resposta positiva já muda a avaliação de risco:
- Sua organização lida com áreas estratégicas, como defesa, diplomacia ou pesquisa e inovação?
- Sua organização tem concorrentes estatais?
- Sua área de atuação é estratégica para algum país?
- Sua atuação pode influir numa disputa entre outros países?
No Brasil, mais setores respondem “sim” do que se imagina: agronegócio (genética, dados de safra, negociação com compradores estatais), energia e mineração (reservas, terras raras, minerais críticos), defesa e aeroespacial (inclusive pequenos fornecedores da cadeia), saúde e biotecnologia e infraestrutura, onde concessões e leilões atraem estatais estrangeiras.
Uma matriz para dimensionar a defesa
Cruzando o valor estratégico da informação com a capacidade do adversário provável, chega-se a quatro situações, cada uma com um nível de defesa diferente:

A matriz evita os dois desperdícios: blindar contra um Estado o que só interessa ao concorrente, e tratar como risco comercial o que está na mira de um país. A orientação britânica Secure Innovation, da NPSA e do NCSC, segue a mesma lógica para startups de tecnologia: proteger primeiro o que um Estado mais gostaria de ter.
Pontos-chave
- O concorrente espiona enquanto o ganho supera o custo. Encarecer a coleta funciona contra ele.
- Um Estado pode aceitar custos maiores que qualquer lucro quando o objetivo é estratégico.
- Estados costumam agir por intermediários privados e miram processos industriais, não só segredos militares.
- Quatro perguntas indicam se a sua empresa pode estar no radar de um país.
- Cruzar valor e capacidade do adversário evita gastar demais ou de menos.
Saber quem é o adversário é o primeiro passo de qualquer defesa. Nos dois casos, porém, a porta de entrada mais usada é a mesma: alguém de dentro, com acesso legítimo. No próximo artigo, trato do vetor mais comum de espionagem no setor privado, que não é um hacker. É uma carta de demissão.
Se você aplicasse as quatro perguntas hoje, a sua empresa estaria no radar de algum país?
Perguntas frequentes
O que é espionagem corporativa?
É a obtenção não autorizada de informações sensíveis de uma empresa para beneficiar outra organização. Pode ser feita por concorrentes (espionagem industrial e comercial) ou patrocinada por Estados (espionagem econômica).
Qual a diferença entre espionagem econômica e industrial?
A espionagem econômica busca vantagem para um Estado ou para empresas que ele considera vitais. A industrial é feita por entidades privadas em busca de inovação técnica e vantagem competitiva.
Como saber se minha empresa pode ser alvo de um Estado?
Responda quatro perguntas: se lida com áreas estratégicas como defesa ou inovação, se tem concorrentes estatais, se atua em área estratégica para algum país e se sua atuação pode influir em disputas entre outros países.
Espionagem corporativa é crime no Brasil?
Sim. As principais condutas são crime de concorrência desleal pelo art. 195 da Lei 9.279/1996, que inclui corromper empregado de concorrente e usar informações confidenciais obtidas por relação de emprego ou por meios ilícitos.
Sua empresa sabe quem é o adversário provável?
A Infinity Safe avalia o risco de espionagem por setor e por ativo, desenha programas de contrainteligência proporcionais e faz varredura eletrônica (TSCM) de ambientes críticos.

Leia também: O espião não entra pelo duto de ar. Ele liga para a recepção; Proteção do conhecimento sensível
Fontes: Política Nacional de Inteligência (Decreto 8.793/2016); cartilha “Espionagem Econômica e Industrial” (PNPC, 2021); NCSC (EUA), alertas sobre espionagem econômica; U.S. v. Walter Liew (2014); Economic Espionage Act (EUA, 1996); NPSA e NCSC, Secure Innovation; Lei 9.279/1996.
Sobre o autor: Brian Benigno é Sócio-Diretor Executivo da Infinity Safe e especialista em Inteligência e Contrainteligência Corporativa, Contraespionagem e TSCM.